• Nael Rosa

Cabeleireiro adota filha do ex- marido e constrói uma história de amor e amizade

Foto: Nael Rosa

Durante a entrevista realizada em sua casa em Piratini, a reportagem foi interrompida três vezes e, em todas elas, por pedidos do colo aconchegante do pai. Assim a menina Emilly Victória, de cinco anos, demonstrou todo o carinho que tem pelo o cabeleireiro Niry Silveira, 44 anos, uma das figuras mais queridas não somente no meio LGBTQIA+, mas em toda cidade.


A história dessa família é cheia de percalços, mas em todos os episódios que cercaram a adoção da filha, o amor se sobressai, pois Emilly é filha de Rodrigo Pedra, já falecido, e ex-marido de Niry, já que os dois conviveram por 11 anos até que optaram por caminhos diferentes.


Dois anos após a separação, e já com Rodrigo tendo uma nova relação, o então companheiro convidou Niry para batizar a filha, o que por motivos pessoais foi inicialmente rejeitado pelo cabeleireiro, episódio que marcaria o início de uma nova história de amor entre pai e filha adotiva.


“Minha negativa ao convite me fez muito mal, então passei a ajudar com alimentos e roupas e não demorou muito para eu trazer a Emilly para passar finais de semana comigo. A seguir, devido ao ambiente conturbado que ela vivia com os pais biológicos, a guarda me foi oferecida pelo Conselho Tutelar. Mais uma vez eu rejeitei, e isso se deu pelo fato de eu ser gay, pois não queria para ela o que meus irmãos passaram, já que eram alvos de piadinhas na escola dado a minha homossexualidade”, relembra Niry.


Mas ao ouvir que se ele não passasse a ser pai da garotinha a mesma poderia acabar numa casa de passagem, ele mudou de ideia, o que teve o apoio da mãe que, e frente ao juiz declarou que a filha que tinha um ano de idade deveria ficar com o ex de seu então atual marido.


“As pessoas dizem que minha filha tirou a sorte grande, mas na verdade eu é que me sinto assim. Me apeguei nela e tudo se transformou, pois eu ainda estava frustrado pela separação e com a chegada dela tudo foi ficando menos difícil e acabou em carinho e amor”, garante.


Mas é claro que nem tudo foi fácil. Ele disse que aprendeu a ser pai na marra, pois enfrentou todos os percalços ocasionados por quem não tem experiência e adota uma criança ainda pequena. Também houve as críticas de quem desaconselhava a adoção diante das situações vividas por Niry e Rodrigo, mas ele resolveu pagar para ver e o final foi além do esperado.


“Pela minha cabeça não passava a ideia de adotar uma criança, uma vez que ela poderia ser alvo de preconceito. Mas minha filha veio para desmistificar tudo isso e transformamos tudo em sentimento”, assegura.


Ele frisa que prepara Emilly para a vida real, inclusive sobre o fato de ser gay, portanto com a linguagem adequada para idade dela, deixa claro que é um homem diferente, que namora outros homens e que se veste de mulher quando vai para a balada.


“Deixo tudo claro quanto possível. Ensino ela que é preciso respeitar as pessoas como elas são e insiro os exemplos de honestidade e para isso não é preciso levantar bandeira do movimento LGBTQIA+. Sou contra a quem faz isso com esse propósito para chamar atenção da sociedade. Sou um homem negro, gay e pobre, mas para progredir eu não preciso de nada além de clientes no meu salão, sendo isso o suficiente, já que percebo na minha atividade o quanto as pessoas gostam de mim”, afirma.


Quanto à relação dos dois, Niry diz que a mesma é fora de série, já que Emilly é muito madura para a idade que tem, assim o que prevalece é amizade.


Por fim, ele dá sua opinião sobre adoção, deixando claro para quem pretende adotar uma criança, independente da sua sexualidade, deve ter amor para praticar esse ato.


“Independente de serem homens héteros ou gays, ou de serem mulheres lésbicas ou não, o que é preciso é ter amor, então se for de coração, sim, eu aconselho”, arremata.


Reportagem: Nael Rosa

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