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Cozinha Solidária, projeto do MST que surgiu na pandemia, prepara e distribui até 500 marmitas para os vulneráveis em Pelotas

Foto: Nael Rosa

Ao todo, 15 voluntários preparam até 500 marmitas diariamente para amenizar parte da fome de quem é vítima da tragédia climática

Entre as tantas ações que objetivam amenizar a fome, principalmente daqueles que, em virtude da invasão de alguns bairros pelas águas das cheias que também chegaram a Pelotas, ficaram desalojados, está a iniciativa do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) que, no Rio Grande do Sul, durante a pandemia de Covid 19 nos anos de 2020 e 2021, criou  o projeto “Cozinha Solidária”, hoje instalado na Armazém do Campo, situado na Rua Anchieta, esquina com a Três de Maio, no centro pelotense.


No local, que tem como estratégia comercializar, mas, inclusive levar à população os tantos produtos orgânicos produzidos nos assentamentos em todo o Brasil, até 500 refeições são preparadas todos os dias por 15 pessoas, entre estas, voluntários que não tem nenhuma ligação com qualquer movimento social, mas que, se somaram à causa neste momento não só de dor e tristeza, mas ainda, de escassez de alimentos para milhões de gaúchos, vítimas da tragédia.


“Fazemos parte desta rede de solidariedade necessária também agora, diante de tudo que aconteceu e ainda está acontecendo. Nós entendemos que processo é extremamente importante, pois para muitos falta o básico: comida”, destaca Mabelly Vargas Pacífico, 24 anos, integrante do Levante Popular da Juventude, um dos movimentos sociais surgidos a partir do MST, que tem como foco atuar e dar suporte principalmente aos vulneráveis socialmente, mas que não residem no campo, e sim, nas áreas urbanas periféricas do país.


Ela é uma das coordenadoras do projeto que prepara e distribui almoço e janta para moradores de um residencial de famílias de baixa renda, o Acássia, e ainda para os alojados em outros quatro locais que, no momento, estão sendo usados como abrigos na cidade: Campus Visconde da Graça (Caveg), Osório, Pontal e Núcleo de Transporte da UFPEL (Nutrans).


“Começamos preparando e doando cinquenta refeições diárias e, para isso, além das doações, grande parte dos alimentos usados vem do governo federal, através da Companhia Nacional de Abastecimento, a CONAB. Hoje já  são 500 marmitas por dia, sendo o abrigo que mais destinamos o instalado no CAVEG”, detalha a voluntária, que acrescenta:


"Neste, são entregues no mínimo 110 refeições, sendo almoço e janta, todos os dias. Mas estamos cientes de que, quando as águas baixarem e essas pessoas voltarem para casa, teremos que aumentar a produção e, para isso, deslocarmos a nossa cozinha para um lugar maior,  já que é fácil detectar   que a fome vai aumentar”, prevê Mabelly.


Sandi Xavier Mancília, 32 anos, pertencente ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), que cursa Geografia, outra das coordenadoras do Cozinha Solidária, entende que o projeto vai além do que os movimentos sociais objetivavam quando surgiram.


“Também através deste projeto, os movimentos surgidos após e, em torno do MST, levam uma mensagem principalmente aos urbanos: o real papel, o que de fato é o objetivo dos camponeses: além da solidariedade com todos,  destinar alimentos também para aqueles que não residem no campo”, explica a estudante universitária e funcionária, assim como Mabelly, do Armazém do Campo.


Fazendo parte daqueles que se somaram à causa apenas como voluntários, está a nutricionista  Lidiane Vieira, 43 anos, que usa parte do seu conhecimento profissional para também colaborar.

 

“Eu, além de orientar quanto ao cálculo das quantidades para formar cada marmita, ajudo no preparo da comida e tudo mais, resumindo: assim como todos, faço de tudo um pouco. Entendo que, tanto como profissional, como ser humano, tenho que dar minha contribuição”, disse a voluntária, que, por também trabalhar na Secretaria de Assistência Social, órgão da Prefeitura, tem contato diário com a desigualdade, com a fome, enfim: com a vulnerabilidade de pelotenses que necessitam constantemente de ajuda para se alimentar, pois nada, ou quase nada, tem enquanto estrutura financeira.


Indagada sobre como se sente ao deixar o consultório particular onde obtém o seu sustento para, um dia sim e outro não, dedicar três horas do seu tempo e assim colaborar e, consequentemente ser uma das responsáveis por preparar comida para os desalojados, ela resume:


“Quando vejo e ajudo a preparar estas marmitas, para depois  elas saírem da cozinha e, por fim, chegarem a quem precisa, entendo que uma das minhas funções como nutricionista: o acesso à alimentação para todos, está sendo realizada”.


A reportagem do site Eu Falei Piratini, foi à outra ponta, talvez a mais importante, ou seja, o destino final, quando o alimento chega para cessar a fome, estão, por exemplo, 26 pessoas alojadas no Nutrans. Todas fugiram da cheia também no bairro das Doquinhas, onde moram muitos pescadores como Adriane Oleiro, 47 anos, que é responsável por, dentro do possível, coordenar o abrigo.


“Mesmo que minha casa já tenha sido inundada no mínimo umas oito vezes, é a primeira vez que fui obrigada a buscar um local que não seja a moradia de amigos para me abrigar. Em todas essas oportunidades, eu fui só mais uma a recomeçar a partir de doações, pois perdi todos os móveis”, relata a pescadora, que finaliza destacando a importância do gesto das voluntárias e voluntários do Cozinha Solidária:


 “Essas marmitas, no mínimo 80, que essas pessoas nos doam diariamente, entendemos ser um gesto muito valioso, pois quase nada temos, inclusive, neste sentido. Essa comida é de comer rezando, divina, maravilhosa, feita com higiene e sempre variada: vem arroz, feijão, carne e saladas.  Cada dia uma refeição mais gostosa que a outra e que alimenta não só a nós, aqui do abrigo, mas outros tantos, também das Doquinhas, como muitas mães e seus filhos que estão ocupando um terreno da UFPEL, próximo daqui. Então, só temos a agradecer a quem está nos ajudando”.


Reportagem: Nael Rosa

 

 

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