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  • Foto do escritorNael Rosa

A dor pela perda do filho transformada em um dos gestos de amor mais bonitos praticados pelo ser humano: a doação de órgãos

Foto: reprodução Facebook

Miguel e sua mãe, Graciele, tinham uma relação de amor, cumplicidade e companheirismo

“Após receber a notícia, me sentei em frente ao médico que estava tão comovido que falava comigo de cabeça baixa, pedi que me olhasse nos olhos e perguntei: doutor, o senhor está me dizendo que meu filho morreu?”. A indagação foi feita por Grasiele Navarine, em um momento que, para a maioria, significa o fim da jornada de um ente querido nesse plano.


Mas não! Mesmo que, após visualizar o doutor apenas balançar positivamente a cabeça ao não conseguir verbalizar a resposta que faria ela sentir aquela que é a maior dor do mundo causada pela ordem inversa da vida: quando os pais sepultam o filho, foi a hora de tomar a decisão que traduz um dos gestos de amor mais lindos que podem partir do ser humano: a doação de órgãos.

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Começamos essa história que, é sim muito triste para família Boaro Navarini, residente em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, pelo final, mas para que você entenda com exatidão o que fizeram, Grasiele, 32 anos, e o marido, Davi Navarini, 37, pais do pequeno, Luís Miguel, de apenas 8 anos, resumimos a  seguir o drama pelo qual os pequenos empresários passaram a partir de 26 de dezembro do ano passado.


Nos últimos dias de 2023, Miguel, um garotão até então saudável e cheio de vida, começou a sentir-se mal, inclusive, com sangramento pelo nariz e boca. Ao buscar ajuda médica, o casal foi informado, a partir dos exames realizados, que o único filho era portador de Púrpura, doença que provoca principalmente a queda das plaquetas, que são células do sangue, o que ocasionou a internação da criança por 17 dias no Hospital Tachinne, período necessário para o tratamento.


Após a alta, recomendações que incluíam muito repouso e a busca por um hematologista. Assim, a família foi descansar, afinal, Miguel estava em férias escolares, na propriedade rural situada em Muçum, cidade onde os avós maternos do filho, residiam, e ainda o local preferido do pequeno que adorava ajudar o avô, Neuro Boaro, na lida comum à rotina do campo.


Duas semanas se passaram e, quando os pais decidiram ter chegado o momento de  voltar à sua atividade profissional, uma vez que, os clientes da lavagem de carros que permite o sustento, estavam à espera, Miguel, resistiu ao retorno, sendo convincente:


“Quando eu disse que teríamos retornar para casa, ele falou: mãe, fica tranquila, renovei o contrato com meu avô por mais uma semana. Nesse momento senti dentro de mim que precisávamos ficar mais um pouco, pois ele estava feliz, brincando,  fazendo o que queria, no lugar que amava e cercado das pessoas que ele gostava e que também o amavam”, recorda.


Ao final do descanso em meio à paz e a natureza do campo, no dia 1º de fevereiro o menino passou a ter mal estar, cansaço, vômito, mas nenhuma dor. Só que naquela madrugada, ao ser acompanhado pela mãe até o banheiro, a face, em específico os lábios, começaram a se alterar, ficarem com certa deformação. Minutos depois, vieram a paralisia de todo lado direito do corpo e a fala confusa, o que levou à busca rápida por socorro que veio com uma ambulância UTI, dado à gravidade do estado de saúde da criança.


“No meio do caminho para o Hospital Tachinne, ele convulsionou, tornou a ter sangramento pela boca e nariz, e o médico que acompanhava o deslocamento, então me disse: mãe, seja forte, acho que vamos perder teu menino”, relembrou a professora, que decidiu abrir mão da carreira, mesmo sendo concursada, para viver todas as fases da vida do único filho.


Mesmo em estado gravíssimo, Miguel resistiu e chegou ao hospital. Não falava, estava inerte no leito, e veio a constatação: o goleiro de uma das categorias de base do Juventude havia tido um Acidente Vascular Cerebral, um AVC, o hemorrágico, o mais grave e raro, já que acomete apenas no máximo dez de cada 100 mil crianças por ano no Brasil.


Ele foi levado para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), entubado, resistiu por cinco dias e, em 6 de fevereiro, o cabisbaixo médico citado no início da matéria, demonstrando estar abalado dado à situação que, já desconfiava ser irreversível, chamou os pais do pequeno, momento em que informou sobre as providências a seguir para constatar ou não a morte encefálica.


“Os exames foram realizados e os resultados atestaram que, daquele momento em diante, caberia a nós a decisão de mantê-lo vegetando ou autorizar o desligamento dos aparelhos que o mantinham respirando. Entendi que isso não seria justo também conosco, mas principalmente, com ele, uma criança até então, cheia de vida”, relata a mãe, na entrevista concedida ao site Eu Falei. Ela continua:


“Não sei explicar, mas não tive tempo para chorar. Então pensei: a vida do nosso filho não pode terminar assim. Rapidamente decidimos pela doação de todos os seus órgãos, pois desta forma, haveriam pedacinhos dele espalhados por aí, como, por exemplo, suas córneas implantadas em outros olhos, o que permitiria a outra criança voltar a enxergar esse mundo maravilhoso o qual vivemos, bem como, o seu coraçãozinho, que tornaria a bater em outro peito”.


Ao todo, oito crianças receberam os órgãos de  Luís Miguel. Além das córneas e do coração, também foram retirados os rins, o fígado, pâncreas e os pulmões, e, em meio à perda trágica que oportunizou o gesto de amor, outra decisão importante:


“Sempre fui a favor da doação de órgãos, mas confesso que tudo o que passamos contribuiu para que, eu e meu marido, decidíssemos também a nos declarar doadores", revelou Grasiele, para a seguir, manifestar mais desejo:


“Meu filho era um ser feliz, gostava de ajudar o seu semelhante. Era disposto, cheio de vida, acordava todos os dias, sorridente, era carinhoso e viveu sua curta vida de forma intensa. O Miguel foi meu companheiro de vida, vivíamos um pelo outro, então, mesmo ciente de que isso é quase impossível dado às regras que integram a doação de órgãos, sim, eu gostaria de conhecer a todos que carregam um pedaço dele, principalmente, aquele ou aquela que recebeu o seu coração”.


Grasiele concluiu dizendo que, mesmo conhecendo o prazer e a felicidade de ser mãe, não pretende gerar outro filho.


“O tempo pode até me fazer mudar de ideia, mas acho que não quero engravidar outra vez, pois minha dor, aliviada por saber que, de certa forma, o Luís Miguel está vivo, será, acredito, intensa por muitos anos. Isso me faz ter medo de passar, caso tenha outro filho, por tudo de novo. Então, não, não quero me tornar mãe novamente”.


Reportagem: Nael Rosa

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