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Tradicionalista que guarda colete usado por Gildo de Freitas, lamenta ausência de festejos

Foto: Nael Rosa

Segundo Brasiliano, decoração rústica também define o que é ser gaúcho

A ausência do tropel – som causado pelo contato das patas dos cavalos com o solo durante no Desfile de Cavalarianos – pode ser um bom exemplo da lacuna deixada aos tradicionalistas de Piratini dado aos tempos de pandemia do novo coronavírus, impedindo de exercer o tradicionalismo pelas duas avenidas que cortam o Centro Histórico para celebrar o 20 de setembro.


Saudoso, no rancho simples situado a cinco quilômetros da área urbana, o aposentado Brasiliano Teles de Moura, de 61 anos, aprecia além do mate, o ruído causado pelos bichos que, nas raras ausências da companheira Nara dos Santos Moura, com quem é casado há 41 anos, serve como alento diante da impossibilidade de estar presente nas atividades que certamente estaria envolvido no período em que a cultura do Rio Grande do Sul se torna ainda mais latente.


“É triste não ter desfile em Piratini. Desfilei uma vez desde que retornei para casa, vindo de Alvorada. Porém, além do desfile, parte importante para relembrarmos os nossos antepassados envolvidos na Revolução de 35, também ficamos impedidos de, por exemplo, estar num galpão neste momento onde estaríamos pegando uma fumaça ao assar um churrasco. O que temos pra lembrar que é setembro são lives, e isso não é o suficiente”, diz o tradicionalista, ao se referir às inúmeras transmissões de shows pela internet promovidas por artistas que buscam se adaptar a atual situação.


No galpão, termo usado por ele para definir a casa rústica erguida em 2012 na propriedade de nove hectares, muitos agrados dados pelos amigos e que o fazem relembrar da infância e parte da juventude na Costa do Bica, 3º Distrito, de onde saiu para viver em Alvorada e que, conforme observa, traduzem o que é ser gaúcho e fica como alento para o ano atípico.


“Entendo que para ser um gaúcho não há necessidade de usar bombacha. Eu sempre estou com ela, mas é também gaúcho quem planta, colhe, está na lavoura, vive da terra. Então nem sempre é preciso estar pilchado”, opina Moura, que comenta a decoração.


“Na parede do nosso galpão tem o que é usado pelo alambrador ou por quem vive no campo, às vezes em pequenas propriedades. Tem a máquina para matar formigas, o cepilho, a plantadeira manual. Pessoas que usam isso, objetos que ganhei ou comprei, nem sempre vão pilchar, mas são tão gaúchos quanto os que se pilcham”, opina o tradicionalista.


Ao recordar a vida em meio aos costumes, ele falou da época em que pôde, ao acompanhar o filho Juliano, a partir dos seis anos, conhecer vários países em continentes diferentes quando estes representaram o CTG Pagos da Saudade.


“Minha esposa trabalhava na extinta Varig, onde também se aposentou. Isso permitiu que nos países em que a companhia de aviação passava a voar, ela promovesse apresentações com nossas danças típicas. Fomos para os Estados Unidos, Tailândia, China. Esse envolvimento com o que é nosso aumentou quando passei a integrar o MTG do qual fui avaliador por quase 20 anos e que me permitiu conhecer pessoas como Paixão Côrtes, Gildo de Freitas, Ciro Ferreira Dutra – o Tio Ciro -, Nico Fagundes e tantos outros”, recorda.

Dos presentes que ganhou e que também contam sua história, ele mostra uma relíquia: o colete de linho usado por Gildo de Freitas em sua última aparição na televisão. A peça foi vestida pelo cantor no programa Galpão Crioulo, exibido em 1982, na RBS TV.


“O colete, assim como um violão, ganhei da esposa do Gildo, a dona Carminha. Junto, ela me deu ainda um bilhete onde comprova a doação. Ela fez isso argumentando que caso viesse a morrer, os filhos não poderiam requisitar o que a mim foi dado”, revela o piratiniense, que contou ser íntimo da família do ícone da música do Rio Grande.


“É como se eu fosse um filho adotivo dela. Acabei me tornando uma espécie de motorista da dona Carminha, após Gildo ter morrido, pois ela era muito requisitada por rádios e ainda pela televisão e quem a levava às entrevistas era eu”, garante Moura, que tem o livro “O trovador dos Pampas”, escrito pela viúva e que ele aparece em três ilustrações da obra.


Para concluir seu modo de viver, o tradicionalista disse que a vida simples no rancho escolhido para passar o restante de seus dias é algo que define o seu modo gaúcho de ser. “Cito o poeta Juarez Machado de Farias, que costuma dizer: “Esse é o luxo da simplicidade”. Não me preocupo com bens materiais, pois o pouco que eu e a Nara ganhamos dá para viver. Então levo a vida assim, bem, sem me preocupar muito”, arremata.


Reportagem: Nael Rosa

Contato: 53- 9-99502191

Email: naelrosaeufalei@gmail.com


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